Nydeia, a florista cega. Randolph Rogers em 1859, esta figura de mármore está na ala Americana do The Metropolitan Museum de NY.
Proposta 10 - OUVIR SENTIMENTOS
“Vivemos em um mundo surdos”. Essa frase de Jacques Conchon, um dos fundadores do CVV, soa estranho para quem não percebe que os nossos ouvidos são acostumados a ouvir todas as formas de ruídos e barulhos, gritos, explicações e argumentos, mas incapazes de escutar e perceber sentimentos e emoções. Não conseguimos atentar para coisas ocultas e que escondem o que se passa no mundo íntimo das pessoas, um mundo onde há dores e muito sofrimento; e muitas vezes proibido de ser exposto pelas expressões. Somos um mundo de falantes mecânicos que não presta atenção no que falamos e também não escutamos o que os outros realmente querem dizer além das palavras.
A história do CVV é trajetória de um grupo de voluntários que precisou aprender a arte de ouvir - Sim uma arte, por que não é comum e precisa estar muito aberto e disposto para que isso aconteça- para ajudar pessoas tristes, solitárias e angustiadas. São pessoas que não conseguem ser ouvidas porque quem as escuta geralmente não presta atenção nas suas dores e sim nas coisas que aparentemente explicam o que está acontecendo com elas.
“O que está acontecendo com você? Me parece que você não está bem, não quer falar sobre o que está te incomodando?
Quase ninguém faz esse tipo de pergunta – que é um simples gesto de oferta de amizade - porque temos medo de escutar coisas que não estamos preparados nem dispostos a ouvir.
Escutar sentimentos é síntese da experiência dos voluntários do CVV-Centro de Valorização Vida. Gente comum que se interessam pelas dores dos outros e se dispõe a ouvir suas queixas e lamentações, como se fossem seus amigos. São pessoas comuns, mas que sabem ouvir um desabafo, um choro convulsivo, uma insatisfação incômoda e até ficar atentos diante de um silêncio longo no qual só se ouve uma respiração distante.
Os voluntários do CVV demoraram muito anos para descobrir que não podiam ajudar sem desenvolver essa habilidade de ouvir sem interrupções e sem julgamentos. Precisam treinar constantemente para que isso aconteça de maneira espontânea no momento que recém uma ligação ou uma visita presencial. Tudo num conversa simples, de igual para igual. Essa habilidade hoje tem outros nomes e definições complexas, mas que não passa da capacidade humana de se colocar no lugar do outro. É por isso que eles ouvem pessoas que ninguém ouvir e assuntos que ninguém quer escutar. É o caso dos suicidas. Ninguém queria ouvi-los sem que fossem julgados e repreendidos. É também o caso de muitos outros comportamentos e condições humanas que a maioria não respeita e não quer saber de ouvir e compreender sem antes julgar e condenar.
O CVV já formou mais de 40 mil voluntários nessa arte de ouvir e na sua filosofia e proposta de vida, que vem se espalhando ao longo de seis décadas. O fundador do grupo dizia que o CVV não chegaria aos 100 anos porque um dia a sociedade não precisaria mais desse tipo de organização, pois a solidariedade compreensiva seria um gesto muito comum entre as pessoas.
“Oxálá um dia, não muito distante, o ato de oferecer amizade seja tão natural quanto o ato de respirar”. – Jacques Conchon
UM MINICURSO PARA APRENDER A OUVIR
TREINANDO OS MULTIPLICADORES
Para formar e treinar MULTIPLICADORES do Minicurso é preciso realizar um encontro de pelo menos 2 horas e dividir esse tempo em 5 etapas:
1. Explicar o motivo do Encontro e fazer um pequenas palestra sobre o suicídio, a necessidade urgente de prevenção e um pouco da experiência dos voluntários do CVV, pessoas comuns que lidam com essa atividade de forma simples e prática.
2. Desenvolver um repertório pessoal sobre os temas do Minicurso, escrevendo e dissertando sobre cada um deles. (Os passos da Relação de Ajuda)
3. Expor o Minicurso para os presentes.
4. Expor novamente e explicar como cada um dos slides deve ser apresentado: qual o objetivo de cada slide.
5. Formar duplas ou trios para simular as apresentações, pedindo que eles organizem a exposição. Iniciar o treinamento e apresentação das duplas e trios. A ideia é perder o medo e ficar seguro durante a exposição. Não interrompa as apresentações. Se der branco, ajude e peça sempre para seguir em frente até concluir. As falhas serão corrigidas naturalmente durante o treinamento.
OUVIR NÃO É FÁCIL.
Pode parecer simples e fácil a atividade de ouvir, mas não é. Vivemos numa sociedade que não tem o hábito da escuta. Falamos muito e ouvimos bem pouco ou quase nada. Somos ansiosos e impacientes, porque pensamos muito e reprimimos os nossos sentimentos e emoções.
Assim, não conseguimos compreender uns aos outros. Como dizia um dos fundadores do CVV, "Somos uma sociedade de surdos”.
Queremos resolver todos problemas por meio de sistemas e métodos racionais ou soluções muitos simplistas e isso nos causa mais problemas ainda, pela insatisfação permanente.
As Figuras 1 e 2 mostram como somos mental e originalmente e depois com ficamos em desequilíbrio no cenário da sociedade atual.
O cenário atual, que por sinal foi um efeito da sociedade industrial e de consumo, é um forte gerador de desequilíbrio e sofrimentos psíquicos.
O desconforto psicológico, o desregramento alimentar e o uso excessivo de drogas medicinais causam as doenças mentais e estas, por sua vez, são somatizadas em forma de inúmeras patologias físicas.
Esse círculo vicioso é o responsável direto pelas epidemias mentais, registradas em larga escala: as crises de ansiedade, síndrome de pânico, paralisia do sono e principalmente a depressão, atingindo todas as faixas etárias.
O desconforto psicológico, o desregramento alimentar e o uso excessivo de drogas medicinais causam as doenças mentais e estas, por sua vez, são somatizadas em forma de inúmeras patologias físicas.
Esse círculo vicioso é o responsável direto pelas epidemias mentais, registradas em larga escala: as crises de ansiedade, síndrome de pânico, paralisia do sono e principalmente a depressão, atingindo todas as faixas etárias.
COMO AS PESSOAS PEDEM AJUDA
Além desse desequilíbrio nas três vivências (Pensamento, Sentimento e Ação), as pessoas que nos procuram se apresentam sob três diferentes aspectos ( Figura 3): o Indivíduo, o Problema e a Pessoa. Os indivíduos são todos diferentes (RG, endereço, profissão, classe, etc). Os problemas também são inúmeros e diferentes nas suas origens e características, como os nossos pensamentos e formas de refletir, embora muitos pareçam ser iguais. Já as pessoas em si (os sentimentos e emoções) são muitos semelhantes. E isso nos torna iguais, sem distinção de classe, cor, crença, etc. Todos sentimos medo, raiva, solidão, rimos, choramos, simplesmente porque essas são emoções humanas. Para ouvir com mais profundidade e respeito temo que dialogar preferencialmente com a PESSOA e não com sua identidade e os seus problemas.
FATO
Não temos condições de resolver os problemas nem mudar as condição sociais das pessoas, mas podemos entender e compreender como elas se sentem e porque estão sofrendo. Essa capacidade de ler os sentimentos se dá pela nossa pré-disposição de acolher e ouvir. É a disponibilidade. Paramos um pouco o que estamos fazendo para prestar atenção no que está acontecendo com o outro. Fazer isso já é algo incomum num mundo como o nosso, competitivo e frio.
REGRAS IMPORTANTES
Em nossos encontros de treinamento e também de ajuda, primamos sempre por algumas regras importantes:
Falar de si sempre na 1ª Pessoa.
Ouvir respeitosamente Permitir que o outro fale.
Respeitar o sigilo das conversas.
Comunicar o desconforto e pedir ajuda.
Pedir a palavra.
Não há sentimento errado.
Sempre se colocar no lugar do outro..
Evitar julgamento.
Não interferir e nem dar conselhos na experiência do outro.
Manter o clima de ameaça zero. Aceitação plena.
OS PASSOS DA RELAÇÃO DE AJUDA
APROXIMAÇÃO – ACEITAÇÃO – COMPREENSÃO - RESPEITO
Resumimos a seguir como realizamos a abordagem daqueles que buscam a nossa ajuda, muitas vezes em situações complicadas e constrangedoras, desafiando a nossa própria condição de pessoa e a capacidade de nos colocarmos à disposição.
1. CONTROLAR A ANSIEDADE DE RESOLUÇÃO
Não temos condições nem o poder de resolver todos os problemas. Alguns deles nem têm solução nas circunstâncias em que se apresentam. Nosso foco principal é sempre a pessoa e seus sentimentos.
2. ACOLHIMENTO FRATERNO
Ameaça zero. Aceitação plena. Quando acolhemos, deixamos às pessoas numa posição tranqüila, confortável, causando um alívio nas suas tensões, medos e nas suas dores.
3. NOSSAS TRÊS FACES
Nossas experiências nos mostram basicamente em três faces ou aspectos da personalidade: o Indivíduo: identidade, RG, endereço, profissão, gênero, status; o Problema: ou situação em que nos encontramos; e a Pessoa: nosso jeito de ser, o temperamento, os sentimentos e emoções. Somos assim e quem nos procura para pedir ajuda também. No primeiro aspecto somos socialmente diferentes e essas diferenças são acentuadas pelas aparências. No segundo aspecto também somos diferentes porque os problemas podem até ser semelhantes, mas não temos soluções prontas para dificuldades que não vivenciamos; podemos ser solidários e compreensíveis, mas não podemos buscar soluções para eliminar os problemas da alçada dos especialistas; e finalmente o terceiro aspecto, no qual somos muito semelhantes, diríamos até iguais: somos humanos e temos sentimentos e emoções idênticas: raiva, alegria, tristeza, medo, etc. Assim, devemos focar o diálogo com a pessoa ( a face que está sofrendo) e deixar de lado naquela instante o indivíduo e o problemas.
Importante: não somos profissionais especialistas, mas podemos ajudar nos momentos de crise, conversando e refletindo abertamente com o outro sobre os sentimentos e emoções que o afligem nesses momentos de solidão e isolamento. Como reagimos diante das coisas? Medo, ansiedade, indiferença, raiva, ironia? Esse deve ser o foco da nossa atenção para com o outro. Ouvir as inquietações e dores íntimas. Isso alivia a angústia, a tristeza, a ansiedade, o medo e muitos outros sentimentos. Se a pessoa insistir em nos cobrar conselhos e soluções lembre que num outro momento ela pode buscar ajuda profissional, mas que naquele instante ele pode se abrir, desabafar e reorganizar suas emoções.
4. SE COLOCAR NO LUGAR DO OUTRO
Quando fazemos isso imediatamente somos percebidos como amigos e ampliamos a nossa capacidade de compreensão.
5. SE DESARMAR DOS PRECONCEITOS
Não julgar e nem condenar. Todos temos valores e visões de mundo diferentes, mas a tolerância e o respeito pode nos ajudar muito a aceitar as coisas que não concordamos e não podemos modificar. Aceitar não significa que devemos concordar e aprovar, mas apenas reconhecer as diferenças e a diversidade.
6. RESPEITAR OS “SILÊNCIOS”
Muitas vezes em uma conversa surgem momentos que cessam os assuntos e os barulhos externos, porém dentro de cada um existem e persistem os barulhos internos. Nesses momentos refletimos sobre as coisas, recapitulamos nossos passos, remoemos nossas ações, limitações e buscamos respostas que estão somente dentro de nós. É o tempo íntimo de cada um, que precisa ser aguardado e respeitado. Permaneçamos também em silêncio.
7. CONFIAR NA NATUREZA HUMANA
Todo ser humano na sua essência transformadora tem um sentido positivo que o faz refletir e questionar sua condição e as coisas que se passam no seu entorno. Ele tem a capacidade de entender e resolver suas próprias dificuldades. Quando essas dificuldades parecem ser insuperáveis, ainda assim, ele pode desenvolver a capacidade de aprender a conviver com elas, sem comprometer sua vida e seus compromissos. Estar ao lado dele e com ele nesses momentos é altamente confortante e de grande auxílio, sem nos preocuparmos somente em oferecer soluções, porque elas não existem como modelos prontos e sim algo que é construído na experiência de cada um.
8. HONRAR A CONFIANÇA
Ao compartilhar conosco suas impressões, seus sentimentos e eventualmente os seus segredos e particularidades, as pessoas contam naturalmente com o nosso respeito e sigilo.






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