segunda-feira, 21 de junho de 2021

CONVIVER NA RELAÇÃO DE AJUDA

 




Proposta 9- CONVIVER NA RELAÇÃO DE AJUDA



Um dos quatro pilares da educação sofreu um forte ataque na sua estrutura e colocou em risco todos os demais nas organizações escolares. A Pandemia atingiu em cheio o CONVIVER.

O convívio, que antes era predominantemente físico, hoje só possível de forma virtual e remoto. As possibilidades de normalização e retorno são também remotas. Então teremos que nos adaptar e fazer o melhor possível pelas ferramentas de contato virtual, dando a elas um tratamento o mais humanizante possível. Também numa situação de retorno daremos um presencial tratamento idêntico ao que já estamos fazendo remotamente.

No CVV, onde todos somos iguais, embora tenha profissionais de todas as áreas e muitos educadores, também tivemos que repensar e reestruturar as nossas forma de conviver e acolher , realçando e redobrando as nossas habilidades compreensivas. É o que nós fazemos todos os dias quando abrimos a nossa salas de diálogo, como as nossas salas de aulas, com as nossas turmas.

Quem telefona ou acessa as nossas ferramentas virtuais de escuta, em situação de desequilíbrio emocional não pode ser tratado a partir do seu status e aparências. Muito menos pelo seu tipo específico de problema, pois isso nos diferencia e distancia deles. Hoje quase todo mundo está em situação de desequilíbrio. Hoje sentimos prazer de ir ao supermercado e também nas farmácias.

NO CVV não somos especialistas, não somos intérpretes nem resolvedores de problemas. Somos seres humanos comuns. Somos compreensivos com o status e com os problemas (ninguém tem culpa de ser o que é), todavia nos concentramos naquilo que nos torna iguais: os sentimentos e a emoções.


O OUTRO É O CENTRO DA RELAÇÃO. 

Nossa postura é de leitores compreensivos de sentimentos e emoções. Quando dizemos leitores compreensivos não quer dizer que somos necessariamente comunicadores verbais dessa compreensão. Podemos compreender em silêncio, apenas ouvindo e falando somente o estritamente necessário, para facilitar a fala do outro. Dar a oportunidade para que ele exponha as suas inquietações. Compreendemos com os olhos e com os ouvidos.

Não é fácil ser ouvinte. 

Não temos esse costume introspectivo. Queremos ser extrovertidos. Queremos falar, doutrinar, aconselhar. E isso nos torna ameaçadores, julgadores, sentenciadores de comportamentos. Para ter essa relação aberta e sem ameaças, é preciso lembrar sempre: aceitação e ameaça zero. Não podemos emitir conselhos padronizados (pois as experiências humanas têm significados muitos diferentes e varia de pessoa muito para pessoa); nem receitas prontas de “faça isso ou aquilo”. Não podemos fazer avaliações e julgamentos superficiais.

Não é nossa função nem cargo fazer aconselhamento. Não somos profissionais dessa área. Mas somos pessoas. Isso é muito forte e revolucionário. Isso muda qualquer coisa, nem que seja por enquanto apenas o ponto de vista.

Se nos concentramos nos sentimentos e nas emoções raramente vamos errar na relação de ajuda. Vamos ver como isso funciona, quando aprendemos a ouvir.



TESTE FALSO E VERDADEIRO NA RELAÇÃO DE AJUDA

1. Vivemos numa sociedade racional, que pensa muito, sente pouco e age menos.

2. Falamos menos e escutamos muito.

3. Quase sempre conseguimos controlar a ansiedade na relação de ajuda.

4. Somos viciados em dar conselhos sem avaliar a experiência do outro.

5. Valorizamos mais o indivíduo, mais o problema e menos a pessoa.

6. A pessoa é igual à nós. Os indivíduos e problemas são diferentes.

7. Quando conversamos com as pessoas compreendemos seus sentimentos.

8. O sentimento é a base da transformação do comportamento.

9. O silêncio é também uma forma de expressão e compreensão.

10. O sigilo é uma forma de respeito e gratidão pela oportunidade de ajudar o outro.



* CVV- Centro de Valorização da Vida, grupo humanitário fundado em São Paulo para apoio emocional e prevenção do suicídio por meio de atendimento presencial e remoto (telefonia e internet). Durante 60 anos formou mais de 40 mil voluntários para conhecer e praticar sua Proposta de Vida: Aproximação, Aceitação, Compreensão e Respeito. Recebe anualmente 4 milhões de chamadas por meio da linha 188 gratuita, por chat e e-mail. Seus 2.500 voluntários doam mais de 2,5 mil de horas por mês para aliviar a solidão, a tristeza e angústia de milhares de pessoas que procuram o serviço para aliviar suas dores emocionais.


O PAPEL DA ESCOLA NO APOIO EMOCIONAL: A EXPERIÊNCIA DO CVV






FORMAÇÃO DE PROFESSORES. PALESTRA REMOTA NO CENTRO DE MÍDIAS DE SP- CONVIVA- 28 de setembro de 2020. Disponível no Youtube.

Haroldo Corrêa Rocha - Secretário Executivo da Educação - SP

Dalmo Duque dos Santos - Professor Mestre em Comunicação e Cultura


HAROLDO

Este é o nosso 27º encontro. Já tivemos aqui contribuições e convidados especiais. Hoje temos um convidado do nosso meio, de forma muita especial. O professor Dalmo está na rede estadual desde 1999, é autor dois livros sobre o assunto, e dedica-se ao CVV há 40 anos. Que pessoas maravilhosas que temos dentro da rede. Agradeço muito a sua presença. Eu gostaria de começar perguntando o que te sensibilizou a fazer esse trabalho voluntário? Você é um professor da rede como qualquer outro e teve essa sensibilidade para voluntariar. Eu gostaria que você falasse sobre isso.

DALMO

Obrigado pela oportunidade. A minha vinculação com o CVV foi uma questão de curiosidade. E na minha cabeça é sempre tive a ideia de que eu seria um educador. Houve uma oportunidade. O CVV é uma grande escola, não passa de uma escola, um lugar onde aprende muitas coisas, inclusive psicologia. Uma das estruturas do CVV é a escola humanista de Carl Rogers e dos psicólogos humanistas contemporâneos que têm uma preocupação com as crises existenciais, e com o sofrimento emocional. Em 1979 eu recebi, juntamente com a minha mãe, um convite para participar da fundação do posto do CVV de Santos. Eu tinha 17 anos e um dia quando cheguei em casa vi no sofá uma apostila e perguntei o que era aquilo. Minha explicou o que era e que havíamos recebido um convite para participar de uma reunião. Eu folheei a apostila e percebi que era um assunto totalmente diferente do que eu conhecia: comportamento humano, sobre a solidão, prevenção do suicídio. Nós morávamos em São Vicente, uma cidade pequena e conurbada com Santos. Fiquei muito curioso e acompanhei ela e uns amigos. Nós estávamos fundando um posto do CVV. Este posto foi fundado no final de 1979 e no início de 1980 já funcionava com 70 voluntários. Uma entidade assistencial emprestou uma sala e um telefone – que era muito caro na época- e iniciamos o trabalho. No primeiro mês nós fizemos 1.200 atendimentos telefônicos e muitos atendimentos presenciais. Nós estávamos sendo testados por um programa de expansão do CVV iniciado em 1977. O CVV foi fundado em 1961 mais era muito fechado e restrito por que o assunto suicídio também era fechado e restrito. O CVV trabalhava na surdina, escondido, atendendo muitas pessoa, sem nenhuma publicidade. A gente até hoje não sabe como as pessoas encontravam o CVV em São Paulo, lá rua Abolição. Em 1976 o Rev. Chada Varah, fundador dos Samaritanos – uma entidade similar da Inglaterra- visitou o Brasil e fez essa proposta de expansão dos postos de atendimento no Brasil. Ele entendia que o Brasil tinha uma vocação muito forte para o voluntariado. As pessoas no Brasil gostam e sentem bem fazendo isso. No meu caso, o que me atraiu no CVV foi a Ideia de conhecimento. Já iniciamos fazendo um curso, aprendo coisas novas sobre o comportamento humano, comportamento suicida. Isso despertou em mim um grande entusiasmo e acabei também trazendo amigos para conhecer o CVV. Tudo novidade. Foi maravilhoso. Depois disso nunca mais me afastei. Agora, teve uma outra causa mais verdadeira do nosso envolvimento no CVV. Foi num momento da nossa vida quando nós perdemos um tio. Ele tinha sérios problemas emocionais e deu um tiro no ouvido. Ele foi se afastando da gente e tentou suicídio com um revolver do meu avô. Naquela época as famílias tinham armas em casa, que é uma coisa perigosa, mas meu avô tinha sítio e achava que era necessário e seguro ter o revólver. Foi uma tragédia, mesmo ela não tendo morrido (morreu alguns depois, sempre muito triste e cheio de mágoas). Eu fiquei chocado porque eu tinha seis anos e vi minha mãe chorando na varanda de casa ao receber aquela notícia. Esse convite, que minha recebeu ela interpreta como uma missão, uma resposta por ter passado por essa experiência. E eu acompanhei e de lá pra cá continuei participando até hoje. Me tornei um pesquisador. O CVV mudou bastante nesses últimos 60 anos. Durante muito tempo foi uma entidade fechada e muito discreta, restrita aos postos físicos. Com essa revolução tecnológica, teve também que entra no mundo digital, criando postos digitais. Com essa pandemia o CVV também teve que se reinventar e reestruturar os seus atendimentos, pois muitos voluntários não podiam deslocar-se até os postos físicos. Foram criados postos nas casas dos voluntários, como já acontecia na Grã Bretanha desde os anos 1970. Mas a grande mudança que aconteceu nas últimas décadas foi a criação do CVV Comunidade. O CVV sai do posto – com uma vivência de abordagem de ajuda – e vai visitar os presídios, as igrejas, os hospitais, as escolas. Há uma demanda e os voluntários preenchem essa necessidade através de atendimento, de acolhimento fraterno; e de cursos de formação. Hoje atende empresas que querem ensinar a proposta de vida do CVV para os funcionários nos shoppings, aeroportos e até canteiros de obras. Alguns engenheiros e encarregados tiveram essa sensibilidade de convidar o CVV para conversar com peões, pedreiros, gente bem simples que vive em São Paulo. Uma coisa espetacular. No meu caso, especificamente como educador, eu sempre tive em mente a ideia de transpor o conhecimento do CVV para as escolas. Há muito anos vínhamos tentando isso. A primeira vez que fizemos uma reunião de roda de conversa numa escola pública, no ano de 2002, foi em Santos, na E. E. Marquês de Tamandaré, no Canal 2. Montamos um núcleo de reuniões aos sábados que foi a base do desenvolvimento da prevenção da prevenção do suicídio aliada à educação. Ali nós percebemos que os funcionários, professores e alunos tinham interesse e necessidade de apoio e educação emocional. Em cada escola que a gente passa, procuramos essa marca, nem que seja através de algumas aulas e palestras. A última ação nesse sentido foi quando tivemos a oportunidade de criar o programa Estação Amizade, um enfretamento contra o fenômeno da Baleia Azul e das epidemias de autolesão entre as crianças. Inicialmente através de palestras e depois a mudança de estratégia colocando jovens para conversar com jovens sobre prevenção. Transformar os alunos de expectadores em protagonistas. Criamos o minicurso Saber Ouvir e passam ser multiplicadores da ideia aprender a cultura acolhedora e compreensiva. Trazemos à tona para conhecimento assuntos proibidos, como a ansiedade, o pânico e a depressão, vistos como estigmas de fraqueza e inadequação e que, na escola se manifesta com mais naturalidade, pois é o reflexo da sociedade. Foi nessa época que desenvolvemos no CVV a cartilha Falando Abertamente sobre o suicídio, voltada para jovens. Com a ideia de quebrar o tabu e oferecer um caminho de compreensão e esclarecimento. Hoje essa prática já está se disseminando nas escolas, ainda de forma, lenta, mas com grande interesse também nas entidades humanitárias parceiras que atuam na rede escolar. Agora na pandemia nós tivemos a chance de mostrar a real importância da educação emocional. O sofrimento duplicou com esse isolamento. No início tentamos nos aproximar dos alunos ofertando uma avalanche de conteúdos e eles se afastaram mais ainda de nós, com muita desconfiança. Quando mudamos a estratégia de fazer um diálogo mais emocional, tocando nos sentimentos, perguntando das experiências pessoais, o cenário mudou, e começou a surgir uma reaproximação.



HAROLDO

Professor, essa experiência é extraordinária – aqui já passaram muitos psicólogos e médicos - e mas tê-lo aqui como professor, de carne e osso, como todos o que estão nos assistindo é muito bom. Temos agora sete mil professores conectados. E você narrou assa experiência, as circunstâncias que te levaram a isso essa ação solidária e voluntária e mostrou que a escola pode ser uma célula de acolhimento emocional. A escola é uma concentração de adolescentes e jovens, uma carga no sentido de ocupação da mente e do tempo do professor. Muitos ficam tensos e reclamam da dificuldade de reservar um tempo para essas práticas. Como que um professor pode se organizar, dentro do seu propósito, para olhar também essa dimensão dos alunos, que é a dimensão emocional. Eu percebo que já existe uma sensibilização nesse sentido, pois nossos alunos são muito mais vulneráveis.

DALMO

A minha grande preocupação é o convívio. A pandemia atingiu em cheio esse nosso pilar da convivência. É uma preocupação antiga e que é de muitos outros professores. É ter uma convivência mais sadia com os alunos, não só uma convivência profissional, mas uma convivência mais humana, mais próxima. Porque eles contam com a gente. Queira ou não queira, sempre nós temos um contingente de alunos que olham para nós de uma maneira de diferente, não olha só apenas como professores; olha como ser humano, com a possibilidade de ser um pais, um tio, um amigo, um irmão. Isso é real. Não é sentimentalismo nem ideologia. É uma coisa real. Nós estamos convivendo com pessoas que não têm a possibilidade de ter uma orientação de um pai, de uma mãe. Eu dou aula numa área de risco, um lugar perigoso, de alta criminalidade, que temos trabalhar mediante de certos acordos com a comunidade, conversar,pedindo tolerância, mais compreensão - uma prática que vem de algum tempo. Mas o que marca bastante é o afeto. Já tive uma ocasião de sair da escola escoltado, protegido por um aluno, criança, me alertou: “Professor hoje o senhor vai sair comigo. Vou levar o senhor até o ponto de ônibus”. Eu achei que ela estava brincando. Não estava. Tinha alguns jovens fazendo assaltos e avisaram ele. Pensei, não volto mais! Vou desistir da escola. É muito perigoso. Mas depois eu penso: como é que vai ficar a minha concepção de educador? Como vão ficar os alunos?

Eu acredito que na sala de aula você está fazendo as suas atividades, está ensinando, provendo os eventos e de repente você percebe que você está olhando para alguém e esse alguém está olhando pra você. E não é só a gente que percebe que está havendo uma necessidade. Certa vez uma aluna me disse: “Professor hoje você está triste. Você não é assim, você está triste”. Reagi rindo, mas concordando: “Realmente você acertou em cheio. Estou passando por alguns problemas, mas acredito que vou superar - Vai sim!!! respondeu ela- e continuei: “Até meio e vinte eu acho que vou estar mais forte. Vamos trabalhar”. Então, se eles percebem que eu estou triste, por que nó não podemos fazer isso? E a gente faz isso com uma certa boa vontade.

Eu costumo fazer o seguinte: esse barulho de sala de aula me incomoda pessoas com mais de 30 anos, cada vez mais. Nós vamos avançando na idade e a gente quer introspecção, não quer mais barulho,a gente que silêncio. A gente está entrando num outro ritmo de tempo; nós estamos indo pela bússola e eles estão no relógio, estão na extroversão. Enquanto estamos na introspecção e eles estão na extroversão, eles querem fazer barulho, eles querem conversa, que é o mundo e forma de vida deles. Então tem um determinado momento que é preciso dar clique. Acredito que todos os professores sabem e podem fazer isso. Fazer aquela transposição do mundo exterior para o mundo interior, em cinco ou seis minutos, desarrumando a sala, transformando o ambiente em um outro cenário. E vamos fazer uma conversa, uma bate-papo sobre profissão, sobre moda, e no meio desses assuntos a gente começa da falar sobre dificuldades emocionais: quem se corta, que já pensou em suicídio, como é que vocês lidam com os problemas de vocês , o que a morte, o que a vida, o que é o medo. Quebramos a rotina fazendo um outro ambiente.

E foi nessas situações que a gente desenvolveu o programa Estação Amizade. E quando não dá pra fazer coletivamente, pois sempre tem alguém precisa de uma ajuda pessoalmente, nós damos um jeito de atender aqueles que sinalizam um interesse mais aprofundado pelo assunto, ouvindo-os por alguns minutos. E quando a gente treina eles para a escuta, aumenta a sensibilidade e também a acessibilidade emocional entre eles. Uma liberdade para pedir ajuda. A gente vê manifestações de afeto entre eles de uma maneira mais ampla, sem barreiras e preconceitos, do jeito deles.


Nós não somos profissionais e solucionadores de problemas. Somos seres humanos. A nossa técnica, que a gente usa no CVV, e passamos a usar na escola, é essa. O ser humano se apresenta para nós em três aspectos: o status,o RG; o problema e a pessoa. Nós vamos dialogar com a pessoa, porque nesse aspectos somos iguais. Somos diferentes no RG, no problema, porém, como pessoas, somos iguais porque a pessoa fala numa linguagem emocional Não importa se é médico, se é advogado , se é médico, se é faxineiro, se é criança, se é adulto. Todos falam a linguagem emocional: eu estou sofrendo, estou sentido dor, estou com medo, estou ansioso, estou frustrado. Essa é uma linguagem humana. Não precisa ser psicólogo ou ser médico para falar sobre isso. Essa especialidade é humana e nós funcionamos como espelhos. Muitas vezes você no ponto de ônibus ou andando na praia e alguém passa por nós e começa a falar, do nada. Isso já aconteceu comigo várias vezes. A pessoa fala, fala e você não a boca. E aí ela se sente aliviada e diz “ Obrigado por ter me ouvido”. E você não abriu a boca. Esta é uma abordagem simples. É assustadora pra quem não está habituado a ouvir. Nós gostamos de falar, de interpretar, de criticar. Essa é a nossa cultura racional. Eles querem desabafar. Então, de repente você se torna ou ouvidor com o ouvido aberto para coisas que não são muito comuns de ouvir, de sentimentos e emoções, as pessoas fica um pouco assustadas. “E se eu me envolver, não vou ter condições de resolver”. Mas nós não temos essa obrigação e responsabilidade de assumir os problemas dos outros. E jamais somos cobrados nesse sentido. Eles querem se reconhecer em nós. Isso é muito confortante. A pessoa começa a conversar com você, um aluno, um colega professor, funcionário da escola, e ele já sabe que você está disponível. O voluntariado é legal por causa disso, porque como o tempo você se torna naturalmente disponível. Só de olhar pra você ele já sabe, essa pessoa é amiga, estou num território seguro, posso desabafar e contar com o sigilo.

O CVV tem sido um peça permanente de transformação da minha vida e de muitas pessoas. Acredito que os educadores têm uma afinidade com o CVV, de trabalhar para o próximo, de olhara outra pessoa com um olhar compreensivo. Os professores são naturalmente apoiadores e compreensivos. A gente não gosta muito de institucionalizar essa prática, deixando as ações mais livres e espontâneas, mas fazer um curso e desenvolver essa aprendizagem é muito importante.

TÓPICOS  DE SAÚDE MENTAL, EDUCAÇÃO E VALORIZAÇÃO DA VIDA
 
I. O advento da sociedade digital trouxe à tona um antigo e poderoso obstáculo para o ensino e a educação: as doenças mentais. Os distúrbios emocionais propagaram-se em velocidade espantosa nas duas últimas décadas, causando sofrimento, danos psíquicos e morte precoce de jovens e adultos.
 
II. As escolas têm hoje na base curricular ótimas ferramentas para reverter esse cenário e reconduzir os alunos e educadores para uma vida plena de aprendizagem, produtividade e saúde mental.
 
III. Ansiedade, pânico, depressão, paralisia do sono são os principais pontos de perigo - que podem levar ao suicídio - e que precisam ser combatidos diariamente na rotina escolar.
 
IV. Eventos seguidos de rodas de conversa, oferta de apoio humanitário e ajuda especializada devem fazem parte dos planejamentos de ensino como estratégias permanentes de proteção socio emocional, convívio e melhoria do desempenho escolar.

V. Aproximação. Aceitação. Compreensão e Respeito são os quatro pilares e eixos da educação socioemocional. Saber ouvir é a principal ferramenta de ajuda e acolhimento.



VIVÊNCIAS EM EDUCAÇÃO E PREVENÇÃO DO SUICÍDIO

Existe uma crença generalizada de que a medicina e a psicologia, como segmentos científicos , profissionais, são autosuficientes e exclusivos na abordagem e solução do problema do suicídio. Mito. Se esta é uma questão existencial e um problema multifatorial e socialmente dinâmico, outros segmentos como a educação, a filosofia, a arte e a sociologia têm a mesma importância e função no estudo e prática da sua prevenção e tratamento. Tanto a medicina como a psicologia, isoladamente, não têm sido suficientes e atuantes o bastante para conhecer e conter o crescimento do suicídio e por isso participam de iniciativas coletivas nesse sentido, como os planos conjuntos de prevenção.
Os educadores, como muitos outros segmentos, por exemplo, acreditam que não devem e não são capazes de atuar nesse campo, alegando despreparo. Mito. A prevenção e solução do problema do suicídio é tarefa multifacetária e só enriquece quando tem a participação da diversidade de experiências humanas. A primeira e mais conhecida delas foi a descoberta feita na Inglaterra na década de 1950 quando o Ver. Chad Varah, padre anglicano e psicólogo, descobriu que a atuação colaborativa voluntária de pessoas comuns mudou radical a abordagem em prevenção do suicídio. O simples ato de ouvir uma pessoa em meio a uma crise emocional alivia o sofrimento psíquico e reverte o risco de suicídio.
Portanto, prevenção não se trata de disputa de conhecimento e competição de atuação de segmentos corporativos. A questão é humana e, num primeiro momento, deve contar com as todas ferramentas e recursos possíveis de ajuda e apoio.
Os planos coletivos de diversidade de abordagem de prevenção do suicídio têm reduzido sistematicamente os números do suicídio no mundo inteiro. No início da década de 2.000 as estatísticas apontavam 1 milhão de ocorrências por ano. Depois da adoção dos planos nacionais os números baixaram para 850 mil.
Por outros lado, também houve mudanças circunstanciais preocupantes: as ocorrências entre criança e jovens aumentaram. Durante e depois da pandemia os números cresceram genericamente e houve aumento de caso de suicídio de meninas adolescentes.
Isso implica em novos estudos e ações emergências de abordagens preventivas. Uma dessas estratégias é permitir que os próprios jovens conversem entre si –pela escuta solidária- e se apoiem diante dos seus problemas e dificuldades. Não é uma prática muito convencional, mas pode ser colocada em prática em ambientes seguros e organizados. Outra descoberta e constatação de uma verdade antiga antes somente percebida e aceita entre adultos: jovens sobreviventes do suicídio, bem como todos que passam por transtornos emocionais, podem se beneficiarem e tornarem-se excelentes multiplicadores das ações preventivas. É um treinamento simples e eficiente, apesar das limitações naturais, que tem sido realizado experimentalmente em várias escolas e que podem resultar em mudança positivas.
A experiência dos Samaritanos na Inglaterra tornou-se uma referência mundial exatamente porque rompeu esse paradigma de exclusividade de atuação; também porque descobriu e ampliou a prática da abordagem simples da escuta solidária, simples e muito próxima dos atendidos. Essa prática jamais seria possível num ambiente formal cujos procedimentos funcionais esbarram em muitos obstáculos de organização. A escuta solidária funciona melhor e cumpre o seu papel humano quando são deixadas de lado todas as formas de intervenção diretiva no comportamento de que pede ajuda. A ideia salvacionista, por exemplo, é prejudicial à prevenção do suicídio porque é diretiva e quase nunca leva em consideração a capacidade de aprendizagem e autodirecionamento de quem está vivendo esse problema. Essa foi a grande descoberta dos Samaritanos: abandonar o salvacionismo e não se preocupar com outras formas de intervenção que caracterizam o repúdio ao comportamento suicida e opção pelas fórmulas tradicionais de repressão de conduta e uso de remédios como única e possíveis soluções. Julgamento e condenação não combinam com prevenção, em hipótese alguma. Essa mentalidade salvacionista, diretiva e interventora já mudou muito mas essa mudança ainda não é uma postura suficientemente aceitável em nossa cultura imediatista e pouco compreensiva. Prevenção do suicídio, como outras formas de prevenção, é um processo de mudança de comportamento. Portanto, é um assunto educativo e que também não é monopólio e exclusividade dos educadores. Mesmo porque o ensino e a educação é a base de conhecimento e atuação de todos os segmentos sociais. Isso significa que prevenção é essencialmente educação. Todos os segmentos precisam passar por esse processo de mudança. As escolas são a base dessa pirâmide.

Mas a experiência de prevenção no universo da educação não fica restrita a abordagem isolada dos profissionais e dos voluntários. Atualmente existem experiências que vão além e desmistificam esse assunto. O crescimento do suicídio infantil e na adolescência em níveis assustadores levaram alguns grupos a empreender ações preventivas ousadas e totalmente diferentes das tradicionais, quase sempre marcadas pelo medo e pelos preconceitos, incluindo o da exclusividade de abordagem. Crianças e jovens podem e devem fazer prevenção do suicídio entre seus pares e isso não depende da autorização e supervisão de adultos, quase sempre baseada nos excessos de cuidados e fuga de responsabilidade. Essa prevenção é possível porque é essencialmente educativa, é humana e simples. Talvez isso assuste e incomode, mas é real o fato de que seres humanos, em situação de igualdade espontânea se apoiem e até se curem de sofrimentos mentais que levariam um tempo inaceitável se fossem feito pelas vias formais de atendimento. Prevenção deve ser uma prática que antecede a todos os tipos de abordagem. É uma obviedade que não tem sido respeitada porque nem todos os segmentos e pessoas têm interesse nessa prática e na aprendizagem da mesma. Resultado: adotam a negação ou a fuga, empurrando a responsabilidade para outras esferas. Escolas são ambientes naturais de prevenção. Alunos e professores, mesmo ignorando e não confiando em suas potencialidades educativas, podem ser ótimas ferramentas de prevenção nas escolas. A participação de outros segmentos nesse processo é um complemento, se necessário, da prevenção. Não podemos mais inverter essa ordem.

A maioria dos jovens em idade escolar, sobretudo das escolas públicas, não podem contar com os pais nesses processos de ajuda. Nas escolas privadas a participação dos pais muitas vezes também não é possível e a ajuda profissional próxima também não tem sido satisfatória. Recentemente uma onda de suicídios em uma reconhecida escola particular de São Paulo levou a direção a mudar de postura e também de rumo na busca de ajuda: procurou um dos fundadores do CVV para fazer um palestra para pais e alunos. Como se vê, acertaram na atitude de mudar, mas continuaram errando na forma de abordagem. O convidado aceitou o convite, porém alertou: “Não entendo nada de suicídio e não vou falar sobre isso. Eu entendo de sofrimento. Sei como é o sofrimento pelo qual passa alguém que pensa em suicídio. Disso eu posso falar ”. O recado foi dado e a palestra foi apenas pretexto e o primeiro passo de outras ações educativas imediatas e que, quase sempre, não são colocadas em prática. Uma escola que passa pela experiência de suicídio de alunos e que apenas convoca uma palestra para acalmar os ânimos e depois coloca o assunto na gaveta do esquecimento age com a mais absoluta falta de respeito com a vida humana. Retrocede ao ponto zero e diz “não” para a prevenção. Uma escola que só fala e prevenção quando acontece uma fatalidade ou usa o Setembro Amarelo somente como eventos aparência visual e superficial também está voltando ao ponto zero e perpetuando a ignorância sobre esse tema.

TABÚ NAS ESCOLAS E NA SOCIEDADE: QUEM DEVE MUDAR PRIMEIRO?

O suicídio continua sendo um tabu, assunto não recomendável e até proibido nas escolas. Por isso ainda é tabú em quase todos os lugares. Algumas escolas tem até o cinismo de fingir que estão pedindo ajuda quando na verdade estão rodeando e tentando ganhar tempo até que a comunidade escolar esqueça das ocorrências incômodas. Outras negam o suicídio e sua prevenção e passam a falar de “projeto de vida” como uma doutrina e modelo educativo, teórico e quase sempre superficial, abordado geralmente por pessoas que não acreditam nesses conteúdos e que até fazem chacota do tema.Triste e lamentável, mas acontece não só com o suicídio mas também com outros temas incômodos. Isso revela que o grande obstáculo da prevenção é a formação de educandos e educadores. Essa formação não pode mais acontecer com base nas diferenças sociais entre que ensina e quem aprende. Entre quem manda e quem obedece. A postura dogmática, salvacionista, negacionista, autoritária e diretiva é desastrosa na prevenção. É repressão e imposição. O caminho deve ser inverso e precisa ser aprendido e apropriado por alunos e professores. Não há diferença de papéis entre quem precisa de ajuda e que pode e deve oferecer. O papel da igualdade deve ser sempre reforçado para desapareça o papel da diferença, que o da formalidade e da distância entre as pessoas. Ouvir é o papel ideal do processo de ajuda: Aproximação, aceitação, compreensão e respeito são os pilares da abordagem preventiva. São as bases da prevenção e da proteção.
Não é uma tarefa fácil. É uma aprendizagem que exige mudança de pensamento e comportamento. Não um processo intelectual. É uma mudança de postura e por isso causa ameaça e insegurança à primeira vista. Com a absorção de informações básica e práticas simples, a mudança vai acontecendo naturalmente. O medo causador das posturas de rejeição, negação e antipatia vai sendo substituído gradualmente pela boa vontade, simpatia até atingir o necessário nível da empatia, que é se colocar no lugar do outro. Não fácil, mas não é impossível. Se aproximar e ouvir quantas vezes for necessário. Aceitar em todas as situações. Compreender constantemente. Respeitar sempre.






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